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As Mulheres so mais prejudicadas no crime ambiental e social de Mariana

25/02/2016

Mulheres CUTistas conheceram a realidade das atingidas e dizem que vão denunciar crime para a Organização Internacional do Trabalho (OIT)

Escrito por: Érica Aragão • Publicado em: 23/02/2016 - 21:19 • Última modificação: 23/02/2016 - 23:58

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Lidyane PoncianoPresidentas e vice-presidenta da CUT em Minas Gerais

Já se passaram mais de 100 dias desde que as barragens de Fundão e Santarém se romperam em Mariana e região e pouca coisa mudou, ou quase nada. Famílias tiveram que sair de suas casas e as comunidades ficaram devastadas.

“As mulheres são as principais vítimas deste crime ambiental e social em Mariana”. A afirmação foi feita pela coordenadora Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, Sonia Mara Maranho para as presidentas das CUTs estaduais Euci Ana da Costa Gonçalves, do Pará, Eliane Bandeira e Silva, do Rio Grande do Norte, Regina Perpetua Cruz, do Paraná, Beatriz Cerqueira, de Minas Gerais e a vice-presidenta da CUT Nacional, Carmen Foro, que se encontraram no Estado de Minas.

A presidenta da CUT Minas, Beatriz Cerqueira, recebeu as companheiras e acompanhou-as em uma visita em algumas regiões afetadas pelo rompimento das barragens de Fundão e Santarém, que aconteceu em 05 de Novembro

“Não foi acidente, foi um crime! E o crime tem responsáveis: Samarco, controlada pela Vale, BHP. É um crime de dimensões nunca vistas na história recente do país, não só de Minas. Tem muita gente calada que deveria estar se pronunciando e cobrando medidas mais eficazes de segurança e de atendimento a todos e todas atingidas”, afirmou.

As barragens estouraram e a lama contaminada desceu morro abaixo, passando por cima e destruindo por completo a comunidade de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, entre outras.

A vida ao longo de quase 1000Km do Rio Doce foi destruída e a água do rio totalmente contaminada. Segundo o relatório feito pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), mais de 60 milhões de metros cúbicos de resíduos da mineração causaram a enxurrada de lama que matou pessoas, destruiu famílias, moradias, escolas, plantações, infraestrutura e fez com que centenas de pessoas, principalmente as mulheres, mudassem a sua rotina diária.

Rio Gualaxo presidentas e vice-presidenta da CUT - Fotos Lidyane Ponciano Rio Gualaxo presidentas e vice-presidenta da CUT - Fotos Lidyane Ponciano

“Acho que aquele rio terá muita dificuldade de se recuperar. As pessoas saíram de suas casas e foram morar em lugares bem apertados, dormem e acordam vendo suas vidas soterradas de lama”, afirmou a vice-presidenta da CUT, Carmen Foro.

“É uma desorganização total da sociedade, as famílias estão totalmente perdidas sobre o que vão fazer de suas vidas, e nós temos que cobrar a responsabilidade criminal desta empresa”, completou.

Segundo o documento, além de mais de 20 mortos, um milhão de pessoas estão sendo atingidas diretamente e indiretamente. 

Em Barra Longa foram 92 casas foram destruidas, mas é evidente que hoje toda população do lugar foi atingida. “Todos os dias chegam ônibus com mais de 600 trabalhadores para obras de recuperação da cidade. Hoje transitam caminhões pelas ruas, cidade pequena que não suporta este tipo de trânsito. O pó, a lama que traz doença continua afetando a vida da população”, explicou a presidenta da CUT Minas, Beatriz Cerqueira.

Gesteira/ Minas - Fotos Lidyane PoncianoGesteira/ Minas - Fotos Lidyane Ponciano

Segundo Beatriz, é a própria empresa que diz quem é atingido ou não, por isso nem todos que estão tendo reparação por parte da mineradora.

É o caso das mulheres.

Segundo Sonia, as mulheres precisam garantir a subsistência da família. “Em Barra Longa o que a gente mais ouviu de reclamação das mulheres é a questão do quintal. O fundo do quintal foi todo coberto de lama, não tem mais como produzir alimentos. As que perderam móveis, até hoje não têm sequer uma máquina de lavar roupa”.

As presidentas e a vice-presidenta da CUT fizeram um diálogo com as atingidas. Carmen lembrou emocionada o caso de uma senhora que para ganhar sua máquina de lavar de volta teve que provar que não consegue mais esfregar as roupas na mão.

A água que as pessoas não podem mais consumir do Rio Doce gerou mais trabalho para as mulheres. Elas agora precisam ir pra fila esperar água. “Um trabalho invisível diante da sociedade e do patriarcado”, justificou Sonia, que é moradora de Minas e coordena o movimento que está dando todo o apoio e organizando todos e todas atingidas.

presidentas e vice-presidenta da CUT em Paracatu de Baixo -  Fotos Lidyane Poncianopresidentas e vice-presidenta da CUT em Paracatu de Baixo - Fotos Lidyane Ponciano

Carmen citou que as responsabilidades da mulher com os cuidados familiares também aumentam. Os adolescentes, que estão numa fase complicada, e as crianças assustadas com medo também são responsabilidades da mulher.

“Nós encontramos uma senhora, separada, de quase 60 anos que está com o pai e mãe juntos e ela tem que cuidar deles, pois já são idosos. Os pais estão muito impactados e ela está tomando remédio para depressão e a assistente social da Samarco, que é quem cuida do atendimento psicológico da população de Mariana e região, disse que ela está bem. São as mulheres que acabam tomando conta dos doentes. Então a mulher tem que coordenar toda questão psicológica dela e da família”, contou Sonia.

A mulher quando está em situação de vulnerabilidade, sem comida por exemplo, ela diminui o consumo e dá para os filhos. “As mulheres são responsáveis historicamente pra cuidar de todo o processo e elas gastam muita energia com isso”, comentou a coordenadora do MAB.

Outra questão que acontece com esse caos, segundo Sonia, é que aumenta a violência contra as mulheres. “Os homens estavam no processo de comando antes da tragédia, agora os homens não tem o que fazer, pois eles perderam tudo. Como as mulheres são oprimidas neste sistema, elas acabam assumindo mais o comando nestes momentos de catástrofe. Mas com isso, acaba aumentando o alcoolismo, aumentando a violência contra mulher”, contou Sonia.

Beatriz citou também o caso de jovem grávida de 4 meses e com um bebê de dois anos que foi arrastada por mais de 1Km junto com toda a lama. “Além do filho que ficou evacuando e vomitando água por vários dias, ela sofreu um aborto espontâneo. Ela abortou na lama!

A presidenta da CUT Pará falou um pouco do que sentiu quando ouviu e viu a realidade das mulheres vítimas da Samarco. “As mulheres que estão lá resistindo são muito guerreiras. Elas querem o bem comum de volta, querem o acesso aos bens que eles conquistaram e que foi destruído. O que marcou é como as vítimas têm sido tratadas pela Samarco. Parece que a empresa está fazendo favor e além disso o mínimo que faz já acha que está fazendo tudo”.

Paracatu de Baixo - Fotos Lidyane PoncianoParacatu de Baixo - Fotos Lidyane PoncianoMas Sonia faz questão de dizer que ao mesmo tempo que o MAB vem trabalhando, elas também se colocam como sujeitas do processo, principalmente em Barra longa a participação das mulheres é em 80%. “Isso é muito importante pra nós conseguirmos fazer um trabalho, porque nós sabemos que as mulheres assumem o comando e levam toda a família dentro deste processo de organização”.

Para Euci o trabalho do MAB é fundamental. “Não dá para gente só ver e se comover, temos que fazer alguma coisa, ser solidárias. Colocar o pé na lama e meter a mão na história e não deixar cair no esquecimento. Sem casa, sem trabalho e sem território não dá para viver. São grandes frentes de luta e que a gente precisa conhecer. Tudo o que eu vi eu sintetizo em uma única frase: violação dos direitos humanos irreparável”.

Para a presidenta da CUT Rio Grande do Norte, o crime foi além do estrago ambiental, foi um estrago na vida das pessoas. “Não é só perda de bens materiais, é uma perda de identidade, de história. A gente percebe vozes no silêncio. São pedidos de socorro que a gente vê em cada espaço destruído, destacou.

“Eu não tinha dimensão do tamanho do estrago ambiental e na vida das pessoas. E agora é uma luta constante para sobrevivência”, completou.

Beatriz contou que as mulheres que visitaram as áreas atingidas e conversaram com as mulheres vítimas do crime ficaram muito impactadas. “Elas não tinham dimensão do que foi o crime que aconteceu em toda região. Elas saem daqui outras mulheres na perspectiva de que entenderam que é importante o compromisso de não tornar isso um esquecimento. Minas agora tem importantes aliadas em outros estados”.

 “A visita nos locais que foram atingidos pelo crime da Samarco foram frutos da reunião. A gente compreendeu como as mulheres realmente foram impactadas. Na verdade foram as principais atingidas. A gente viu isso em loco. Uma coisa é o que você vê pela televisão, mas lá a gente viu o que a TV não mostra e que só entende quem vê de perto”.

Para a coordenadora do MAB, a ideia da visita foi de conhecer a realidade dos atingidos e atingidas e para as presidentas e vice-presidenta ajudarem pensar propostas de como acumular forças para o projeto popular de sociedade e não deixar na impunidade tudo aquilo que vem acontecendo.

“Foi uma agenda de empoderamento importante de conhecer a realidade, acho que temos que fazer mais isso. Precisamos ser mais solidárias e estarmos mais presentes nas lutas de outras mulheres”, finalizou Bia.

Para Sonia do MAB, a unidade das mulheres e dos movimentos social e sindical é fundamental. “Nós vamos precisar de muita unidade política para denunciar aquilo que vem ocorrendo”.

 

Papel da CUT

Segundo a vice-presidenta, Carmen Foro, a CUT tem papel fundamental na denúncia, tanto nacionalmente quanto internacionalmente. “Nós vamos fazer a denúncia deste crime cometido contra o meio ambiente, entende-se meio ambiente não só o rio, floresta, mas as pessoas também, na Organização Internacional do Trabalho (OIT) e em todos os espaços públicos possíveis”, contou.

Para Beatriz, a CUT tem esse compromisso de enfrentamento a este tipo de crime e tem o compromisso da defesa dos trabalhadores e das trabalhadoras, então é uma agenda importante pra central.

“Além do nosso papel de denunciar, a CUT também tem o papel de articulação com os movimentos sociais e de apoio com o movimento de atingidos por barragens (MAB), a necessidade de enfrentamento ao poder econômico, que envolve o grande poder das mineradoras e de lutar contra o financiamento empresarial. Eu acho que isso deve ser um processo permanente porque o mundo precisa saber o que aconteceu e continua acontecendo, porque a lama continua descendo e quem foi atingido continua atingido e tendo seus direitos violados”.

A presidenta da CUT Paraná disse que ao ver toda a realidade de Mariana e região lembrou o quanto a mídia não fala e não mostra tudo. “A gente vê que a mídia fala muito de Bento Rodrigues, mas várias comunidades foram atingidas. Comunidades onde existem pequenos agricultores que praticamente sumiram do mapa”.

Paracatu de Baixo- Fotos Lidyane PoncianoxParacatu de Baixo- Fotos Lidyane Poncianox

A mídia e o crime ambiental e social

A grande mídia quando noticia o que aconteceu em Mariana e região em nenhum momento fala em crime, mas sim em tragédia. Segundo Beatriz, o rompimento das barragens foi crime porque poderia ter sido evitado e, além disso, a população poderia ter sido avisada.

“Ninguém foi informado em nenhuma comunidade, nem os próprios trabalhadores. Não teve mecanismo de segurança, não teve um plano de atendimento emergencial, a empresa não previu a extensão das consequências do rompimento das barragens, porque duas barragens permanecem lá, uma inclusive é muito maior do que a barragem que foi rompida”, destacou.

Beatriz também lembrou da propaganda da Samarco veiculada na grande mídia na qual mostra que a empresa está cumprindo com suas responsabilidades sociais, o que segundo ela não é verdade.

“Inacreditavelmente a Samarco diz ao povo aquilo que ela não faz. A empresa mostra o seu poder econômico, porque esta mídia é uma mídia paga, mas também temos o comprometimento dos principais meios de comunicação com as mineradoras. O poder econômico não se organiza isoladamente. Assim como os donos dos meios de comunicação constituem um poder político e econômico no país, as mineradoras também. Haja vista que eles investem em bancada para ter influência política no nosso país, nas nossas assembleias legislativas e nas nossas câmaras de vereadores. A mídia não faz o papel de enfrentamento deste debate como um crime conforme aconteceu e cada vez mais os fatos demonstram que não foi acidente”, explicou Bia.

“É uma tentativa absurda da Mineradora tentar recuperar sua imagem sendo que ela deveria investir na recuperação da vida das pessoas com a plenitude que elas tinham antes”, completou.

Paracatu de Baixo- Fotos Lidyane Ponciano Paracatu de Baixo- Fotos Lidyane Ponciano

O crime em Mariana e o Estado

Segundo Beatriz, o estado agiu por omissão. “Em 2007 o estado atuou para acelerar o licenciamento de operações na região. Para ela, essa rapidez no licenciamento fez com que as questões de segurança do relatório não fossem cumpridas. “O governo agora é responsável, mas em 2007, 2008 e 2013 também são responsáveis através de seus órgãos de fiscalização que concederam o licenciamento da Samarco”.

“O crime era evitável se tivessem normas de segurança e plano de atendimento emergencial. Pra gente ter uma ideia além da Samarco, a Vale também depositava rejeitos nesta barragem que se rompeu. Houve uma total negligencia nos aspectos de segurança e de contenção de diminuição dos impactos uma vez rompida a barragem”.

Segundo a presidenta da CUT Minas o Estado deveria estar atuando nas ações da Samarco. “Era pro estado ter mecanismo de proteção a esses atingidos e consequentemente não deixar a empresa cuidar de tudo sozinha e chantagear a população atingida, como eles fazem em Mariana. Dizem que se a Samarco sair da cidade, a cidade não sobrevive porque é dependente da atividade econômica da mineração”.

“É a Samarco que diz quem é o atingido, é a Samarco que faz o atendimento psicológico aos atingidos, é a empresa que mesura os impactos psicológicos do crime que ela cometeu. Não era para ser assim!”

Para a vice-presidenta da CUT, Carmen Foro, é lamentável e muito triste ver os próprios algozes cuidando das vítimas. “A mineradora tem controle político de muitas situações, situação essa que agora, que não tem ninguém para fazer uma interferência. Imagino que o governo do Estado de Minas deveria estar próximo do seu povo, daquela população. O governo municipal fazendo sua parte de atendimento àquela população. Mas não, deixaram tudo na mão da empresa e a empresa pinta e borda, trata do jeito que quer”.

Outra coisa citada tanto pela Beatriz quanto pela Carmen, é o financiamento empresarial de campanha. Para a presidenta e a vice-presidenta muitos políticos não têm coragem de denunciar e de enfrentar a situação porque tiveram suas campanhas financiadas por grandes empresas, inclusive a Samarco.

Paracatu de Baixo  - Fotos Lidyane PoncianoParacatu de Baixo - Fotos Lidyane PoncianoSobre o encontro das Presidentas estaduais e vice-presidenta nacional da CUT

Uma atitude solidária. É assim que a vice-presidenta da CUT, Carmen Foro vê a visita das presidentas das CUTs estaduais aos locais e vítimas do crime ambiental e social em Mariana. 

 “Além de pisar na lama para ver a realidade, nós fomos ser solidárias às vítimas deste crime, que na grande maioria são mulheres, e ser solidárias a nossa presidenta da CUT no estado de Minas, que tem tomado isso como uma bandeira importante de defesa aos atingidos e de cobrança firme de punição deste crime cometido lá em Mariana e em outros municípios”.

As presidentas e vice-presidenta percorreram quase 100 Km por ruas de terra seguindo o mesmo percurso que a lama fez. Passaram pelas cidades de Barra Longa, Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Gesteira. “Quando vêm presidentas de outros estados nós temos a certeza de que esta questão será discutida e foi compreendida, que não foram só as visitas, teve um momento de diálogo com os atingidos, e em especial as mulheres atingidas”, explicou.

Para Bia este diálogo entre as presidentas e vice-presidenta das CUT’s e as atingidas foi importante para os dois lados.  

“Pra gente de Minas é importante que a gente não deixe este crime cair no esquecimento. As pessoas só entendem o que de fato aconteceu e continua acontecendo com as comunidades quando elas pisam na lama, quando elas conversam com as pessoas. Elas voltam pro seu estado, com certeza, com o compromisso de lembrar e fazer a discussão do que foi o crime cometido em toda região”, completou.

Para a presidenta da CUT Paraná, Regina, a troca de experiência e a unidade das mulheres dentro da CUT é muito importante, ainda mais nesta atitude de se solidarizar com as famílias e mulheres vítimas deste crime. “Pra nós foi muito importante ter ido até lá, colocado o pé na lama e visto o que realmente aconteceu e que isso não pode ser esquecido. É uma obrigação do movimento sindical estar nesta luta, discutindo o tema do meio ambiente, o tema dos direitos humanos que foram violados naquela região”, contou.

O Crime e o capitalismo

O crime ambiental e social em Mariana e região tem tudo a ver com a crise do capitalismo. Segundo a coordenadora do MAB, no último período a Samarco lucrou muito com a venda de minério, preço da tonelada chegou a 150 dólar, hoje está em 55. Isso quer dizer, que os acionistas e rentistas não admitem ganhar menos de um ano para o outro, se não são eles que entram na crise do sistema, além do estrutural.

“Então o que acontece na barragem do fundão: A ordem foi que o lucro permanecesse o mesmo e com isso então você aumenta a produção do minério em 15% no uso da energia e 30% no uso da água. Há uma quantidade muito maior do lago da barragem para jogar todo o rejeito. Você explora o trabalhador e você demite trabalhador, foi o que a Samarco fez no último período”, explica Sônia.

“Isso tudo nos faz entender que é um exemplo das contradições e daquilo que ainda possa vir acontecer no decorrer no próximo período neste processo de sugamento que as empresas privadas fazem da nossa soberania”, completou.

Sonia também citou um estudo que o MAB fez no último período. Segundo o documento, a crise dos sistemas capitalista, imperialista e patriarcal está em contradição. Não consegue se materializar e com isso busca fazer uso, principalmente dos recursos naturais de base de elevada produtividade no qual estes recursos consigam dar um retorno financeiro de forma rápida, e o minério é um deles. Uma outra forma é explorar ainda mais a força de trabalho e também sugar do Estado, tentando privatizar aquilo que ainda é de controle do próprio estado.

“O que vimos foi uma grande irresponsabilidade de uma empresa que só tem o lucro como sua meta principal. Toda produção é social, mas essa apropriação é privada”, finalizou.

 

O MAB e a recuperação das vidas

Sonia conta que chegando em Barra Longa dá para perceber, principalmente em Paracutu de Baixo que as famílias estão abandonadas, desesperadas, sem ter nenhuma perspectiva do que que a empresa vai fazer com os atingidos. “Neste processo, experiência que o MAB tem de 25 anos com as barragens e os atingidos em todo o país para nós está muito claro de que somente a organização do atingido como sujeito do processo de luta de reivindicação é que vai mudar essa situação como colocada hoje, de violação dos direitos humanos”.

Segundo Sonia, na perspectiva de reassentamento, de reconstruir a cidade, não tem nada hoje que garanta isso. O MAB está num processo de conscientização dos atingidos para tentar organizar em grupos de base, com coordenações, com processo de formação política, com articulação para participação agora no 8 de março, com conscientização para participar do 14 de março – dia internacional de luta contra as barragens, pelos rios, pela água e pela vida.

“Sem contar também uma coisa que aflige muito os mineiros é o preço da tarifa de Minas Gerais. Nós pagamos 1000 reais por megawatt, enquanto a Samarco fez um contrato com a Cemig de usar energia de 2014 a 2022 a 70 reais o megawatt. Olha aí a diferença que tem, porém a Samarco contratou da Cemig para este período 409 mega watts e só usa metade desta energia a outra metade ela vendeu no mercado livre a curto prazo. Onde o preço da energia chegou a ser vendida a 820 reais, isso quer dizer que a Samarco comprou para estes anos todos essa energia, não usou, vendeu, ganhou dinheiro com a energia e quem pagou foi o povo mineiro”, destacou.

“Significa que a energia que ela usou para produzir o minério não teve custo nenhum. As empresas privadas veem negócios em todo processo de negociação. Este projeto hoje de tentar repor os direitos dos atingidos também nós estamos entendendo que pode virar um negócio. Por isso a necessidade de nós fazermos a luta e a organização dos atingidos, mas a própria empresa está tentando blindar, tentando combater o trabalho que o MAB e outras organizações veem somando na região”, explicou.

Hoje quem está no comando das negociações das indenizações e do tratamento psicológico é a Samarco. “Na experiência que temos a empresa vai tentar gastar o menor valor possível com as indenizações para tentar se reestruturar, porque no estudo que fizemos nesta região tem minério para explorar mais 115 anos, num valor de mais de um trilhão de reais. Eles querem explorar minério para exportação e os atingidos continuarão na miséria”, afirmou.

O MAB vem fazendo todo este trabalho com o deslocamento de militantes, cuja maioria já morava em Minas, para fazer um trabalho que depois consiga virar uma acumulação de forças nestas regiões. “Hoje a empresa fala em construir casas padrões, terceirizar as construções das casas e na experiência que o MAB tem é de péssima qualidade e isso não vai deixar os atingidos felizes. Isso vai exigir muita luta, muita organização, muito enfrentamento e muita participação dos atingidos”, destacou.

“Nós continuamos na luta dizendo: Minério, água e energia não são soberanias, devem estar a serviço do povo brasileiro, da classe trabalhadora”.


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